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Por Anderson Barbosa, G1 SE, Aracaju

Do Povoado Queimadas, em Ribeirópolis (SE), até a sede do município de Nossa Senhora Aparecida (SE) são cerca de 8 Km de rodovia estadual que desde 2004, no dia 12 de outubro, se transforma no caminho da fé.

No dia da romaria, a população de cerca de 9 mil habitantes passa para mais de 100 mil, com a presença dos romeiros de várias partes do Nordeste e de outras regiões do Brasil. Para esta quinta-feira (12) são esperados 50 mil devotos a mais. De acordo com a Arquidiocese de Aracaju (SE), a festa já é considerada a segunda maior romaria a pé do Brasil.

Após 8 km de caminhada, os fiéis se concentram no Centro de Nossa Senhora Aperecida (SE). (Foto: Admarcos Santana)

Para a Igreja, o gesto dos romeiros é semelhante ao da Mãe de Jesus, que seguiu o caminhos do Salvador. "Somos caminheiros para o Pai. Ela nos ajuda a caminhar ao encontro de Deus. Cada devoto tem essa espiritualidade, que nos coloca na direção de Cristo. É muito bonito quando percebemos que as pessoas de fato acabam encontrado o amor de Deus neste caminho. Pois são pessoas que ao longo das suas vidas, nas suas lutas, nos seus trabalhos e dificuldades encontram o milagre com a ação de Cristo Jesus", diz o padre da cidade, Douglas Gonçalves.

Na romaria, os fieis chegam aos poucos e para se protegerem do calor, trazem chapéus de palha, guarda sol e muita água. A multidão transforma a paisagem na rodovia no Agreste de Sergipe espalhando mensagens de fé.

A romaria está na 14ª edição e celebra os 300 anos de aparição da santa, que foi pescada no Rio Paraíba do Sul no ano de 1717, em São Paulo. Os festejos no município sergipano começaram no domingo (1º), com caminhada pelas ruas da cidade e missas. Nesta quinta, a programação começa nas primeiras horas do dia.

“A partir das 5 horas, a rodovia que dá acesso ao município estará fechada e quem precisa entrar na cidade só terá acesso com veículo antes desse horário. Às 6 horas tem a missa no Povoado Queimadas e em seguida o envio dos romeiros que já terão peregrinado cerca de oito quilômetros. Por voltas das 10 horas, na praça da cidade, vai ser celebrada a Santa Missa do Romeiro. A programação segue com atos culturais e religiosos até às 17 horas, encerrando com a procissão e a missa com o arcebispo Dom João Costa”, informa o padre Douglas Gonçalves .

Naizete Santos atribui cura de um aneurisma a Nossa Senhora Aparecida. (Foto: Reprodução/Internet)

Caminho dos milagres

Naizete Santos de Oliveira, 54 anos, é potiguar e mora na cidade há três décadas. Após anos sentido dores de cabeça descobriu ter dois aneurismas. Seis meses depois de passar pela segunda cirurgia, um exame constatou que o método escolhido não tinha dado certo. A única saída era fazer um novo procedimento, que no estado só era feito particular.

Ela ganhou o direito na Justiça, mas o médico explicou à paciente que às chances de sobrevivência eram mínimas. Se isso acontecesse, sairia paraplégica. “Decidi que se fosse para ficar em cima de uma cama, preferia morrer. As chances de morrer eram de 90%, mas quando o médico chegou disse que eu tinha uma fé grande, pois pelo problema que passei não era para tá viva. Foi então que falei que Deus, Nossa Senhora e os anjos iriam iluminar a equipe”, relembra.

Apesar da fé, dona Nizete deu sustos na equipe. A artéria fechou várias vezes, até que depois de mais de 6 horas de cirurgia, quando já tinham desistido, veio a reação. “O médico disse que era como se fosse um milagre. A artéria abriu tanto que deu para passar o aparelho e puderam concluir o procedimento. No outro dia, ele disse que tinha certeza que eu estaria cega ou louca. Pra surpresa dele, ao fazer todos os testes viu que estava tudo bem. Saí do inferno e estava no céu, porque não sentina nenhuma dor. Deveria passar oito dias na UTI e fiquei menos de dois dias”, conta emocionada.

Bruno Natan diz que foi curado de uma síndrome nefrótca. (Foto: Arquivo Pessoal)

Os relatos de milagres atribuídos a virgem de pele negra se multiplicam. Desde os 17 anos, o jovem universitário Bruno Natan, hoje com 23 anos, participa de pés descalços da romaria. Tudo começou depois de sofrer com a síndrome nefrótica, que é uma doença em que o paciente apresenta muita proteína na urina e pouca no sangue.

“Cheguei a ficar dois dias internado. Tinha edemas nas pernas, os olhos também ficavam inchados. No hospital público, os médicos disseram que era um caso muito grave e corria risco de morte, por isso me encaminharam a uma unidade particular para fazer o tratamento. Quando iniciei os primeiros exames fiz uma promessa a Nossa Senhora. Após cinco anos recebi a cura. Hoje, faço apenas exames de controle. Na medicina via uma das soluções, mas a cura veio através de Nossa Senhora Aparecida”, afirma o universitário.

Os romeiros carregam na caminhada relatos de curos atribuídos a Mãe de Jesus. (Foto: Admarcos Santana)

Patrimônio de Sergipe

Há dois anos, através da Lei Estadual nº 63/2015, a romaria virou Patrimônio Cultural e Imaterial do Estado de Sergipe. Segundo a historiadora Isabela Cruz, a romaria é considerada uma das mais importantes manifestações do catolicismo popular do estado.

“A Romaria chama a atenção por sua força devocional no tecido histórico e social dessa comunidade e por sua capacidade identitária, afora o fato de estar inserido nas discussões em torno do turismo religioso como agente fomentador da memória de um povo, gerando lucro e renda ao pequeno município”, observa.

Em 2004, quando foi criada, havia um decreto do Papa João Paulo II concedendo indulgências plenárias, que é a remissão dos pecados, nas peregrinações aos templos dedicados a Nossa Senhora Aparecida. “Romeiros de todos os cantos que aqui chegam, sejam para pagar as suas promessas, para pedir ou para renovar suas esperanças com a Mãe de Deus, encontram nesse pedaço de chão a dimensão de um espaço sagrado. Então, desde o milagre alcançado esse é um lugar privilegiado de muita devoção e fé”, afirma a historiadora.

Imagem em homenagem à santa fica no Centro da cidade (Foto: Divulgação)

O milagre de Torquato

Nossa Senhora Aparecida é uma das 10 cidades brasileiras com o mesmo nome e em Sergipe se deve a um milagre de um filho da terra, atribuído à santa. O relato aparece no livro “Nossa Senhora Aparecida: História, Fé e Identidade”, que tem como um dos escritores a historiadora Isabela Cruz, sobrinha do fiel que teve a graça alcançada.

No ano de 1956, José Torquato de Jesus, que na época morava em São Paulo, teve problemas em um dente, que se agravou com o tempo, passou a ter dificuldade de se alimentar, por causa do inchaço que atingiu o rosto, o pescoço e a garganta. Os médicos já não sabiam mais o que fazer para curar o paciente de 33 anos, que perdeu diversas noites de sono, ficando ainda mais fragilizado.

“De acordo com a filha Elisabete Maria de Jesus, durante a sua estadia no estado de São Paulo, ele adoeceu. Movido pela fé, começou a fazer oração de um modo todo especial lembrou de Nossa Senhora Aparecida e com muita esperança pediu a intercessão da Mãe. No mesmo instante, apareceu em sua frente Nossa Senhora Aparecida vestida com habito de uma madre (como ele falava), escuro e longo, na cabeça um longo véu, testa e pescoço coberto de branco”, conta Cruz.

"No mesmo instante, apareceu em sua frente Nossa Senhora Aparecida vestida com habito de uma madre, escuro e longo, na cabeça um longo véu, testa e pescoço coberto de branco”, Elisabete Maria de Jesus, romeira

No livro, Elizabete relata que o pai se emocionou ao ver à santa. “No momento da visão caminhava com a santa fazendo um trajeto em terras do Povoado Maniçoba, e lá ela mostrava onde queria a capela. Por duas vezes ela lhe apareceu com um rosto resplandecente e de grande beleza e com os braços estendidos em forma de cruz”.

Segundo a filha de Torquato, depois desse momento as dores cessaram. O dente desinflamou sem medicação. Em agradecimento, a capela foi construída em 1957 e “em 24 de Dezembro de 1975, com a transferência da Sede de Cruz das Graças para Maniçoba (atual cidade) foi construída a Igreja no mesmo local e instituiu a partir de 1976 a Festa da Padroeira”.

O nome da cidade, Nossa Senhora Aparecida, também se deve ao milagre. "Diferentemente de outras cidades que surgem através de um planejamento, ela surge a partir da fé, de um milagre. O município cresceu e se desenvolveu em torno da religião e continua revigorando os corações. Digo sempre que a maior riqueza do povo desse lugar é a fé que têm no coração", ressalta o padre Douglas Gonçalves.

Padre Douglas (Foto: TV Sergipe)

Fonte: G1 – Sergipe